Liderança que abre caminhos
Há algum tempo venho refletindo sobre o que significa ser um líder que abre caminhos.
Não necessariamente aquele que ocupa a posição mais alta, que tem todas as respostas ou que aparece na frente das grandes decisões. Penso naquele que, de alguma forma, procura criar espaços que antes não existiam.
Uma oportunidade.
Uma conexão.
Uma porta aberta.
Um projeto.
Um ambiente para que alguém possa crescer.
Existe algo muito bonito nisso. Mas também existe uma parte menos falada.
Quem abre caminhos, muitas vezes, caminha sozinho por algum tempo.
Há decisões que precisam ser tomadas antes de existir consenso. Há riscos que alguém precisa assumir primeiro. Existem ideias que fazem sentido para você muito antes de fazerem sentido para quem está ao redor.
Talvez alguma solidão seja inevitável na liderança.
Mas tenho percebido que ela não precisa ser permanente.
O caminho começa a deixar de ser solitário quando outras pessoas passam a ocupá-lo. Quando recebem espaço, autonomia e confiança para construir também.
E talvez aí esteja uma das mudanças mais importantes que vivemos quando amadurecemos como líderes: perceber que o caminho que abrimos não precisa continuar pertencendo a nós.
Nem sempre acertamos com quem queremos ajudar
Há, porém, outro lado dessa história.
Durante a jornada, também precisei lidar com a decepção de errar.
De tomar decisões acreditando estar fazendo o melhor e, ainda assim, não atender às expectativas de pessoas que liderei.
De perceber que intenção e resultado são coisas diferentes.
Querer desenvolver alguém não significa necessariamente saber como fazê-lo naquele momento.
Querer ajudar não nos torna infalíveis.
E ocupar uma posição de liderança aumenta, e não diminui, a responsabilidade de reconhecer quando nossas decisões produziram um efeito diferente daquele que imaginávamos.
Essa talvez tenha sido uma das lições mais importantes para mim.
É relativamente fácil falar sobre nossas boas intenções. Mais difícil é compreender que alguém pode legitimamente ter se frustrado conosco mesmo quando acreditávamos estar tentando ajudá-lo.
Liderança também envolve reconhecer isso.
Pedir desculpas quando for necessário.
Revisar decisões.
Aprender a escutar aquilo que nem sempre gostaríamos de ouvir.
E, principalmente, aceitar que não conseguiremos corresponder a todas as expectativas depositadas sobre nós.
Isso não pode se transformar em indiferença.
Mas também não pode nos condenar à necessidade permanente de aprovação.
Há uma diferença importante entre assumir responsabilidade pelos nossos erros e carregar para sempre a obrigação de nunca decepcionar ninguém.
Nenhum líder consegue cumprir essa promessa.
E nem todas as mãos que seguramos permanecerão conosco
Existe ainda uma experiência diferente — e talvez mais difícil de elaborar.
Em alguns momentos da minha trajetória, também me decepcionei com pessoas a quem procurei ajudar.
Pessoas para quem abri portas, compartilhei conhecimento, ofereci oportunidades ou simplesmente estendi a mão em determinado momento da jornada.
Algumas seguiram outros caminhos.
Outras se afastaram.
E houve situações em que fiquei com a sensação de ter sido procurado enquanto eu era necessário e deixado de lado quando deixei de ser.
Seria fácil transformar essas experiências em ressentimento.
Também seria fácil concluir que ajudar demais é ingenuidade.
Hoje penso diferente.
Talvez parte do amadurecimento esteja justamente em compreender que a ajuda que oferecemos não cria uma dívida permanente sobre quem a recebe.
As pessoas têm o direito de seguir outros caminhos.
Podem mudar de opinião.
Podem construir relações diferentes.
Podem até escolher uma direção que nós jamais escolheríamos.
Quando ajudamos alguém esperando, ainda que silenciosamente, fidelidade eterna, talvez já não estejamos oferecendo apenas ajuda. Estamos criando uma expectativa de reciprocidade que nem sempre foi combinada.
Isso não significa ignorar ingratidão, oportunismo ou relações que se mostraram desequilibradas.
Maturidade também é aprender a estabelecer limites.
É perceber padrões.
É entender que confiança deve existir, mas não precisa ser cega.
É continuar disposto a contribuir com as pessoas sem permitir que a generosidade seja confundida com disponibilidade irrestrita.
Há pessoas que passam pela nossa vida.
Outras caminham conosco por muitos anos.
Algumas recebem muito de nós e depois desaparecem.
E existem aquelas que, talvez sem sequer perceber, devolvem muito mais do que um dia receberam.
Faz parte.
O desafio é não endurecer
Talvez uma das maiores provas de maturidade para quem escolhe abrir caminhos seja esta:
não permitir que algumas decepções mudem aquilo que existe de melhor em nós.
Depois de algumas experiências ruins, podemos começar a nos proteger demais.
Paramos de confiar.
Paramos de ensinar.
Paramos de compartilhar.
Paramos de abrir portas porque alguém, em algum momento, não valorizou a porta que abrimos.
Mas então existe um risco ainda maior: permitir que poucas pessoas determinem a maneira como passaremos a tratar todas as outras.
Eu não quero que seja assim.
Prefiro aprender.
Criar melhores limites.
Observar mais.
Compreender que nem toda relação será recíproca.
Reconhecer meus próprios erros.
Mas continuar acreditando que vale a pena criar oportunidades para outras pessoas.
Porque, olhando para trás, algumas das maiores alegrias da minha trajetória não estão apenas naquilo que construí.
Estão naquilo que vi outras pessoas construírem depois que encontraram algum espaço para começar.
Talvez o caminho nunca tenha sido nosso
Com o tempo, comecei a perceber que existe uma diferença entre abrir um caminho e querer ser proprietário dele.
O primeiro gesto é liderança.
O segundo pode se transformar em necessidade de controle.
Talvez o verdadeiro teste aconteça quando as pessoas que ajudamos começam a caminhar sem precisar mais de nós.
Quando desenvolvem suas próprias ideias.
Quando ocupam espaços maiores.
Quando criam relações que não passam mais por nós.
Quando deixam de pedir permissão.
Isso pode provocar uma sensação estranha.
Mas talvez seja exatamente esse o objetivo.
Um professor não deveria desejar alunos eternamente dependentes.
Um líder não deveria precisar ser indispensável.
E alguém que abre caminhos deveria se orgulhar quando percebe que outras pessoas já conseguem percorrê-los — e, melhor ainda, começam a abrir caminhos para quem vem depois.
No fim, liderança talvez seja isso
Primeiro, abrimos caminhos.
Depois, aprendemos a abrir espaços.
Em seguida, percebemos que precisamos permitir que outras pessoas ocupem esses espaços sem tentar controlar aquilo que farão com eles.
Nesse processo, vamos acertar e errar.
Vamos frustrar algumas pessoas e ser frustrados por outras.
Vamos aprender que boas intenções não anulam nossos erros.
E que nossa generosidade não nos dá propriedade sobre a trajetória de ninguém.
Talvez amadurecer seja exatamente encontrar equilíbrio entre essas duas lições.
Assumir responsabilidade pelo impacto que causamos nas pessoas sem acreditar que conseguiremos atender a todas as expectativas.
E continuar estendendo a mão sem transformar cada gesto de ajuda em uma expectativa de lealdade futura.
Hoje, penso que o líder que abre caminhos pode realmente experimentar momentos de solidão.
Mas essa solidão diminui quando entendemos que liderança não é fazer com que todos permaneçam ao nosso lado.
É contribuir para que mais pessoas consigam caminhar.
Algumas caminharão conosco.
Outras seguirão caminhos diferentes.
E algumas, talvez, um dia abrirão caminhos que nós mesmos jamais seríamos capazes de abrir.
Quando isso acontece, talvez o caminho tenha cumprido seu verdadeiro propósito.
Sobre o autor
Vinicius Cassimiro Carvalho é fundador da KASSY Consultoria e da Democratizando, autor, professor e palestrante, com atuação nas áreas de governança, compliance, investigações corporativas e desenvolvimento profissional. Acompanhe suas reflexões e conteúdos no LinkedIn.
A Democratizando é uma iniciativa criada para ampliar o acesso ao conhecimento, às conexões e às oportunidades de desenvolvimento profissional nas áreas de Governança, Riscos, Compliance, Auditoria e temas relacionados.
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